Memórias de 30 anos de uma cabeleireira afro

Publicado: 29/10/2011 em Entrevistas
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“Do pente de Ferro à Trança”

POR MARIA DA PENHA NASCIMENTO* 

 Os movimentos fervilhavam na década de 1960. O    mundo se transformava: Martin Luther King, os Black  Panther, Ângela Davis… A repercussão chegava ao  Brasil como uma bomba.

Mas foi mesmo nos anos 1970 que tudo aconteceu. Os  afrodescendentes puderam começar a sua história,  espalhando pelo mundo que a hora do continente africano havia chegado, unindo os filhos perdidos. Era hora de re-escrever a história das etnias divididas.

Nos principais Estados com presença afro, como São Paulo, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro, as notícias chegavam em primeira mão. Os movimentos negros e os simpatizantes se movimentavam em gritos de liberdade. Os cabelos e os corpos se soltavam em outras gingas, vibrando esteticamente, dando início ao novo ciclo dessa década.O movimento Black Power bailava ao som do Chic Show e do Renascença Clube.

A tesoura e o o pente soltavam os fios crespos alongando em direção ao ritmo do soul, que embalava os bailes da época. No fim da década, as tranças e os dreadlocks, ou simplesmente dreads, ganharam força. Com toda realeza africana, os cabelos blacks se entrelaçaram, resgatando do consciente coletivo, dando um basta no que se dizia ser padrão.

E a estética branca perdeu parte dos consumidores que, escravizados durante um século, quebraram o espelho da madrasta enclausurada, resgatando a alta estima Black Power. O negro é lindo! O trabalho precisou de executores que fizeram a ação acontecer. O Afonjá, no Rio de Janeiro, foi o primeiro salão do Brasil, em 1970, e muito importante para a época. A inspiração, emanada pelos deuses da criação, resgatou na nossa memória lindos penteados trançados e a consciência de que isso era um resgate cultural. O futuro dos negros estava apenas começando.

 Nos anos 1980 tudo se  confirmou. A estética negra já  não era mais a mesma. Em  1979 fui trabalhar no Salão  Afonjá com um pessoal bem  bacana. Era uma espécie de  escola que nos ensinava a  desenvolver os penteados  como se fosse mágica. Em  1981, fui para Salvador, na  Bahia, onde desenhei algumas  cabeças *Maria da Penha Nascimento, cabeleireira especializada em cabelos afro há 30 anos, é também conselheira da revista RAÇA BRASIL por lá.

Nessa época, negros e negras da cidade ainda não conheciam as tranças soltas (alongamento). De volta a São Paulo, trabalhei com diversas pessoas até fundar o Orile, em parceria com minha amiga Kika. Hoje? Dreads, tranças e alongamentos se misturam numa só ação, a de que não precisamos apenas de cabelos para nos afirmar. É preciso mais! É preciso atitude, como canta a juventude do hip hop. E continuamos, alongando, trançando e até alisando sem querer imitar ninguém, apenas brincando de ser feliz.

*Maria da Penha Nascimento, cabeleireira especializada em cabelos afro há 30 anos, é também conselheira da revista RAÇA BRASIL

Fonte: Revista Raça Brasil número 133  ( Todos os Direitos Reservados )

Disponínel em: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/133/do-pente-a-tranca-de-ferro-memorias-de-30-anos-143516-1.asp

***AKOMABU STUDIO AFRO BELÉM-PARÁ***

CONTATO: akomabu@live.com / (91) 81866008

comentários
  1. fabiano [ disse:

    a igual minha irmã

  2. beATRIZ disse:

    a igual minha irmã

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